segunda-feira, 18 de maio de 2015

Monólito indeterminado.

Eu decidi que hoje não seria dia de poesia, pelo menos não pra mim. Na verdade, talvez hoje não seja o meu dia pra escrever. Acontece, não é? Dias em que as palavras não querem fluir de nós. Alguns chamam de mau humor. Há também aquela velha história de levantar do lado errado da cama. Se for assim, o problema é comigo. Dessa vez acho que são as palavras que estão de mau humor. Estão me deixando no vácuo. Ignorando meu pedido de ajuda. O que eu vou dizer pro cara da banca de jornal? Ou pra moça na bilheteria do metrô? Não pensei que depois de tanto tempo de relacionamento eu seria abandonado dessa maneira. O que eu fiz de errado? Eu sempre dou atenção a vocês. Costumam brincar e pular livremente pela minha cabeça. Eu estou perdido sem vocês, queridas palavras.

Algumas horas atrás eu estava em um ônibus parado no trânsito em algum lugar perto do centro da cidade. Havia um senhor  muito "mal vestido" carregando um carrinho de mão cheio de entulho. Provavelmente aquele senhor era um morador de rua e o carrinho parecia estar muito, muito pesado. Ele caminhava lentamente. Em um certo momento, com meu ônibus ainda parado no mesmo lugar, o boné do senhor caiu no chão. A primeira coisa que passou pela minha cabeça foi que o senhor teria que parar pra pegar o boné e que talvez alguns pedaços de telhas de seu monte de entulho fossem cair do carrinho quando ele o soltasse. Havia tanta gente em melhor situação pra pegar coisas do chão. Mas algo inesperado aconteceu. Antes que o senhor pudesse fazer qualquer coisa ou que eu pudesse concluir qualquer pensamento, um homem vestido com um terno, que deveria estar na casa dos trinta anos de idade, aproximou-se , pegou o boné do chão e o colocou de volta na cabeça do senhor.

Então o ônibus começou a andar e a cena rapidamente sumiu de vista. No entanto, nós três aprendermos uma lição. Eu, o senhor e o homem.  As palavras não me serviram hoje mas consegui escrever esse texto porque o mundo de um jeito ou de outro me surpreendeu.


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